VOLTA AO LAR
Entra em casa o poeta de 52 anos.
Transpõe a sala vai até o escritório
larga a pasta tira o paletó -
de repente
sabe que vai morrer.

Com o paletó na mão
dirige-se ao quarto.
Não vai morrer hoje
nem amanhã talvez: apenas sabe
a verdade-lâmina
que sempre soube
e lhe esplende na carne: vai
morrerembora neste momento
esteja despindo as calças
com que veio da rua.

-Ferreira Gullar

CERÂMICA
Os cacos da vida, colados,
formam uma estranha xícara.

Sem uso,
ela nos espia do aparador.

(Drummond)

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